O resgate da identidade
nacional: cultura e fato histórico.
Percursos Históricos, Ano I, vol. out., série 03/10, 2011.
SOARES, Marilda
As circunstâncias históricas
do século XIX fizeram aflorar o nacionalismo no mundo ocidental. Na Europa, as
invasões napoleônicas, as guerras de unificação italiana e alemã, bem como as
novas perspectivas de desenvolvimento do neocolonialismo, levaram as populações
à preservação de seus espaços territoriais por meio da difusão dos valores constitutivos
da nacionalidade. Do mesmo modo, na América Latina, os processos de independência
e a necessidade de manter a coesão política colocaram em pauta o tema da identidade
cultural.
No Brasil, a Independência,
em 1822, deu início a um processo de busca dos referenciais histórico-culturais
do país. Era necessário conhecer a população, os recursos econômicos e as
riquezas da terra, e registrar a História da Nação, mas alguns aspectos apresentavam
grande complexidade. Como registrar a História de um povo formado segundo os
critérios excludentes da sociedade colonial? Como apresentar a cultura do povo brasileiro
sem mencionar o fato de que parte significativa desse povo e, portanto, dessa cultura,
foi sistematicamente desqualificada pelos colonizadores? Como falar em
identidade sem apontar seu complemento necessário – a alteridade – e todos os
conflitos resultantes da presença e do predomínio do europeu no Novo Mundo?
O Império, com a colaboração
dos industriais, fundou o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que
promoveu um concurso para selecionar o melhor projeto de construção da
História do Brasil. O vencedor, Von Martius, propôs que a História nacional se
fizesse apontando a contribuição das três raças e a preponderância do europeu,
o sujeito histórico responsável pelas grandes transformações. Desse modo, a
História que começou a ser escrita não tratou as três etnias presentes na
formação do povo e da cultura do Brasil com o mesmo olhar. A relação entre
dominadores e dominados explicitava o preconceito de superioridade cultural do
europeu frente ao ameríndio e ao africano.
Também na Literatura, em O
Guarani, Iracema, A Moreninha e em tantos outros romances, o
tema da nacionalidade foi mote privilegiado. O Romantismo encarregou-se de
divulgar as relações entre brancos, índios e negros em seus enredos recheados
de bons selvagens, escravos subservientes e estudantes abolicionistas,
negando ou suavizando os embates presentes na sociedade.
Textos científicos e
políticos publicados na época reforçavam os debates em torno da questão étnica.
Muitos intelectuais influenciados pelo pensamento darwinista colocavam preceitos pseudocientíficos a
serviço da manutenção do sistema escravista, afirmando que a Nação permaneceria
aquém dos avanços técnicos e econômicos verificados na Europa, ou se
degeneraria, se ficasse à mercê da ignorância das tradições africanas. Outros
intelectuais, preocupados com novo elemento adventício, o imigrante, apontavam
a necessidade de preservar a cultura formal da influência dos estrangeiros, com
suas falas e seus modos tão diferentes dos padrões idealizados pela elite
nacional.
Assim, para compreender o
processo de formação da cultura e do povo brasileiro, é necessário cotejar os
textos históricos, literários e científicos, resgatando a preciosidade de suas
informações e perceber como tais textos revelam, além dos cenários e
personagens – reais ou fictícios –, as mentalidades e as sutilezas dos
discursos permeados pelos valores contemporâneos.
Na passagem do século XIX
para o século XX, o Brasil passou por muitas mudanças, com a Abolição, a
República e a imigração européia e asiática. Contudo, o padrão cultural
difundido no país estava, ainda, atrelado aos aspectos ideológicos e estéticos
divulgados nos centros da civilização europeia.
Amplos setores da
aristocracia nacional consideravam que, para ser moderno, ser civilizado, era
preciso agir como se estivesse nas ruas de Florença, de Paris, de Londres. Em
outras palavras, cultivavam o ideal de transplante cultural iniciado nos
primeiros tempos da colonização e mantido durante o Império.
Com a prosperidade econômica
gerada pela produção do café, a industrialização e a urbanização criaram os
novos ricos e mantiveram o prestígio de setores da elite tradicional. Uma das
formas de expressão do status político e econômico era o consumo de
obras de arte, o financiamento de grandes monumentos públicos e a construção de
belas mansões. Em certos bairros nobres do Rio de Janeiro e de São Paulo havia
casas suntuosas, construídas e decoradas com tijolos ingleses, mármores
italianos e cristais franceses.
Também era comum que
edifícios públicos fossem projetados por arquitetos europeus, ou construídos na
Europa e transportados, peça por peça, para o Brasil, como é o caso do Teatro
de Manaus e do Mercado Municipal de Belém.
Os artistas brasileiros
geralmente iniciavam seus estudos na Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro
e completavam-nos em Paris, muitas vezes com verbas concedidas pelo próprio
governo brasileiro. De volta ao Brasil, pintores do cabedal de Almeida Júnior e
Rodolfo Amoedo traziam as técnicas do realismo, do impressionismo e do
pontilhismo as quais eram usadas na confecção de telas que retratavam cenas
históricas nacionais.
Não obstante as preferências
estéticas da elite, as mudanças no cenário político, econômico e sociocultural
dos países ocidentais refletiram-se nos novos estilos da arte europeia e
acabaram influenciando artistas e outros intelectuais a iniciarem, no Brasil,
um movimento de renovação. Pintores, escultores e escritores procuravam novos
caminhos para a arte, buscando a expressão de um sentimento e de um pensamento
voltado para a valorização da cultura nacional. Ainda que formados pela cultura
erudita, constituída nos moldes europeus, lograram transformar os modelos
instituídos e socialmente valorizados. Dentre eles, destacaram-se Lasar Segall,
Anita Malfatti, Vitor Brecheret, Di Cavalcanti, Heitor Villa-Lobos, Mário de
Andrade e Oswald de Andrade.
Já em 1913, Lasar Segall,
pintor de origem lituana que se fixou definitivamente no Brasil em 1923,
realizou sua primeira exposição, contribuindo para a introdução do expressionismo
alemão, um estilo de vanguarda. Em suas obras, elegeu temas nitidamente
nacionais, como a mulata e o negro, as vicissitudes do espaço urbano, com suas
favelas, e a natureza, com cores vivazes.
Pouco tempo depois, em 1917,
Anita Malfatti recebeu dura crítica pela exposição de suas obras, às quais Monteiro
Lobato atribuiu a pecha de uma “espécie de caricatura”. Seus trabalhos
mostravam a influência das obras expressionistas de Picasso e Gauguin e representaram
a divulgação de uma tendência que seria mantida e ampliada após a Semana de
Arte Moderna.
Juntamente com outros
artistas e intelectuais do período, Vitor Brecheret, escultor italiano,
lançou-se em defesa do novo estilo. Ele próprio, autor do Monumento às Bandeiras,
apresentava um padrão estético diferenciado, com traços sintéticos e movimentos
expressivos.
Após visitar a exposição de
Malfatti, o escritor Mário de Andrade escreveu Paulicéia desvairada,
obra poética modernista, publicada em 1922, ano em que, nos dias 13, 15 e 17 de
fevereiro, se realizou em São Paulo, no Teatro Municipal, a Semana de Arte
Moderna.
Mais do que uma exposição, a
Semana converteu-se em um movimento com manifestações pela inovação e liberdade
de expressão. Segundo os organizadores do evento, as mais modernas formas de
expressão artística difundidas no exterior deveriam ser incorporadas de forma
crítica – adequadas e apropriadas à realidade nacional –, o que significava a
defesa da representação, pelas artes, dos aspectos diversos da cultura brasileira.
E, de fato, as obras de Mário e Oswald de Andrade, Di Cavalcanti, Heitor
Villa-Lobos, dentre outros, caracterizam a cultura produzida nas diferentes
regiões do Brasil e refletem uma realidade até então pouco explorada pelas
Artes Plásticas e pela Literatura.
É bem verdade que, antes do
Modernismo, o Realismo-Naturalismo apresentara uma visão mais objetiva do
mundo, buscando retratar fielmente o cotidiano, diferentemente da literatura
parnasiana do final do século XIX, que se inspirava no ideal de arte pela
arte e refletia muito pouco a realidade brasileira. Assim, é necessário
destacar outras contribuições da Literatura ao registro da cultura nacional,
como se pode observar em obras como O Mulato, de Aluísio de Azevedo, ou Memórias
póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. No início do século XX,
Euclides da Cunha, com o registro histórico publicado em Os Sertões,
Lima Barreto, com os apontamentos sobre a sociedade suburbana do Rio de
Janeiro, e Monteiro Lobato, com a literatura infantil reveladora do espaço
rural, também assinalaram elementos recônditos do cotidiano do homem
brasileiro.
Os modernistas do início do
século passado constituíram um movimento de formação e divulgação da identidade
nacional com implicações na organização da política cultural do Estado, e
inovaram ao expressar o ideal de superação da histórica dependência cultural,
como proposto em 1928 por Oswald de Andrade, no Manifesto Antropofágico. Tal
superação não excluía os avanços das técnicas artísticas, nem mesmo a
apreciação dos estilos europeus, mas valorizava o elemento nacional,
ressaltando a necessidade de se constituir uma moderna vertente de
interpretação do Brasil.
E, nas Artes Plásticas, em
Di Cavalcanti ou Tarsila do Amaral, mesmo quando a técnica e a estética faziam
com que a obra se aproximasse do cubismo de Pablo Picasso, emergia uma temática
brasileira, com cores e formas que expressavam os gestos e os gostos cultivados
nos trópicos.
Do mesmo modo, a liberdade
das formas foi a tônica do novo estilo literário. Em Paulicéia desvairada,
Mário de Andrade recorreu ao uso de expressões populares, o que indicava a
incorporação da cultura espontânea pela cultura erudita. E, sobretudo, apresentava
o Brasil como o espaço de uma cultura plural, cujos hábitos linguísticos sobrepunham-se
à formalidade da gramática portuguesa.
Na música erudita, Heitor
Villa-Lobos apresentava releituras de cantigas folclóricas colhidas em
pesquisas nas regiões Norte e Nordeste, transformando-as em peças musicais de
projeção internacional. Concomitantemente com a instalação da indústria
fonográfica, a música popular também ganhava prestígio junto às elites nacional
e internacional, que apreciavam composições como Carinhoso, de
Pixinguinha.
No cinema, filmes com temas
populares, como Nhô Anastácio chegou de viagem, ou O guarani,
baseado na obra literária, eram vistos por multidões formadas por todas as
classes sociais.
Nessa mesma época, o país
preparava-se para as comemorações do Centenário da Independência, de modo que
os anos de 1920 representaram um momento especialmente propício para os debates
em torno da cultura e da política nacional. Nesses debates, o nacionalismo
representou o ponto nodal das disputas e, também, das possibilidades de
conciliação.
A definição de modernidade
cultural foi estabelecida pela Semana de Arte Moderna, que anunciou a vanguarda
da intelectualidade brasileira, sua capacidade criadora, e buscou, ao mesmo
tempo, explorar os alicerces da nacionalidade. Com esse movimento, produziu-se
a união do tradicional ao contemporâneo, propondo uma nova abordagem que significava
a mistura entre o cosmopolita e o nacional, com opção pelo nacional. Assim, o
Modernismo e o nacionalismo, conservador ou progressista, não podem ser
compreendidos separadamente e o caminho de compreensão perpassa pelos vieses
culturais cujo esteio é o fato histórico.
Texto publicado
originalmente em: Domínios de Linguagem II: literatura em perspectiva.
Organizadores: Maria Célia Lima-Hernandes, Guilherme Fromm. São Paulo: M.C.
Lima-Hernandes: G. Fromm, 2003 – Edição impressa. ISBN: 85-902957-2-9.
Bibliografia.
MICELI, Sérgio. Intelectuais à brasileira. São
Paulo: Companhia das Letras, 2001.
NAXARA, Márcia Regina Capelari. A construção da
identidade: um momento privilegiado. In: Revista Brasileira de História,
v. 11, n º 23/24, São Paulo: set.91/ago.92.
SOARES, Marilda Aparecida. “Para promover a grandeza
da Nação”: O Estado Novo e o projeto para a educação nacional. Tese
de Doutorado. FFLCH/USP: São Paulo, 2002.
SODRÉ, Nelson Werneck. História da Literatura
Brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969.
VIANNA, Oliveira. Ensaios inéditos. Campinas, SP:
Editora da UNICAMP, 1991.